Fiat Grande Panda: o regresso do utilitário acessível
Passei alguns dias da semana ao volante do novo Fiat Grande Panda. Dias de escola, supermercado, aulas de natação, mochilas espalhadas no banco traseiro e perguntas constantes das duas crianças: “É elétrico mesmo?” e “Podemos ficar com ele?”.
Num mercado onde os citadinos acessíveis parecem estar em vias de extinção, o Grande Panda surge quase como um manifesto. Um automóvel pequeno, descomplicado, disponível com motor a gasolina ou 100% elétrico e, sobretudo, com preços que ainda fazem sentido. A versão a gasolina arranca em torno dos 20 000 euros, enquanto a elétrica começa pouco acima dos 25 000 euros. Valores que devolvem racionalidade a um segmento que precisa urgentemente dela.
Mas será que o estilo retro-futurista é suficiente para o tornar irresistível? A resposta começa no primeiro olhar.

Nostalgia pixelizada com carácter
O Grande Panda assume sem pudor uma inspiração retro. Há qualquer coisa de gráfico, quase 8-bit, nas óticas quadradas e na linguagem geométrica da carroçaria. O amarelo vibrante da unidade ensaiada ampliava essa personalidade irreverente, e tornava impossível passar despercebido à saída da escola.
Os detalhes contam histórias. As pequenas incisões sobre as cavas das rodas evocam o antigo logótipo da marca. No pilar traseiro, um painel holográfico alterna entre o novo e o antigo emblema consoante o ângulo de visão, um gesto subtil, mas carregado de simbolismo. A palavra “Panda” surge gravada na chapa lateral, quase como assinatura em relevo.
É um pequeno automóvel com presença. E isso, num segmento onde muitos optam pela neutralidade, é uma virtude.
Interior: cor, memória e leveza
Ao abrir a porta, somos imediatamente envolvidos por um interior surpreendentemente alegre e cheio de personalidade. O contorno amarelo do sistema de infotainment evoca a icónica pista oval do histórico complexo industrial de Turim, com um pequeno Panda ilustrado a percorrê-la — detalhe que as crianças descobriram antes de mim, apontando e rindo enquanto exploravam o habitáculo.
Os plásticos são simples, mas a combinação cromática transforma o espaço numa experiência visual envolvente. Tons de azul profundo nas portas e no tablier, contrastes de textura e, nesta versão superior, uma pequena caixa de arrumação em bambu à frente do passageiro conferem leveza e sofisticação discreta ao conjunto. Cada elemento parece pensado para criar harmonia entre funcionalidade e estilo, tornando o habitáculo acolhedor e intuitivo.
O espaço não é apenas visual: a altura generosa e a forma quadrada da carroçaria proporcionam conforto para os ocupantes, incluindo os dois bancos traseiros onde as crianças se sentam com facilidade, e permitem instalar cadeiras de segurança sem constrangimentos. Pequenos detalhes, como suportes para copos e bolsos bem posicionados, revelam atenção ao dia a dia de uma família urbana, transformando o Grande Panda num automóvel pequeno, mas surpreendentemente capaz.

Surpreendente para o tamanho
Apesar das dimensões compactas, o Grande Panda revela uma habitabilidade convincente. A silhueta quadrada beneficia a altura interior, e mesmo com uma cadeiras de criança instalada atrás, não senti claustrofobia. Há espaço suficiente para um sistema ISOFIX voltado para trás, embora a instalação exija alguma paciência, dado que os pontos de fixação estão algo escondidos.
A bagageira surpreendeu. Conseguimos acomodar mochilas, sacos de compras e ainda os equipamentos desportivos sem compromissos. Para um citadino, cumpre, e mais do que isso, adapta-se.

Condução: simples, honesta, urbana
Num quotidiano dominado por SUV complexos e digitalizações excessivas, o Grande Panda é quase terapêutico. Botões físicos para a climatização. Chave tradicional que roda na ignição. Comandos diretos para desligar assistentes de velocidade ou manutenção na faixa. Tudo está onde esperamos que esteja.
A versão elétrica anuncia até 320 km de autonomia em ciclo WLTP, mas em utilização realista, percursos urbanos, algum trânsito e ar condicionado ligado, a autonomia rondou os 220 km. Para cidade e periferia é suficiente; para viagens frequentes mais longas, a versão a gasolina continua a ser a opção mais versátil.
Um detalhe inteligente na versão elétrica: o cabo de carregamento AC retrátil escondido atrás de uma pequena tampa frontal. Uma solução elegante e prática, que evita cabos soltos na bagageira. Pena que não esteja disponível na configuração de carregamento AC mais rápida (11 kW), onde o cabo mais espesso obriga a solução tradicional.
Não há condução “one-pedal” na versão elétrica, algo que poderia reforçar o conforto em ambiente urbano. A visibilidade traseira é limitada devido ao óculo estreito, exigindo maior atenção em manobras.
Teste com alma
O Grande Panda não tenta ser sofisticado. Não procura impressionar com ecrãs gigantes nem com números exuberantes. Procura, isso sim, devolver ao automóvel pequeno aquilo que sempre foi a sua essência: acessibilidade, funcionalidade e personalidade.
Durante esta semana, tornou-se parte da rotina familiar com naturalidade. Fácil de estacionar, económico de utilizar, suficientemente espaçoso para dois filhos e suficientemente distinto para nos arrancar um sorriso.
Num tempo em que os automóveis acessíveis parecem cada vez mais raros, o Fiat Grande Panda surge como um salvador discreto e necessário. Pequeno no tamanho, grande na intenção.
Por Eduardo Carvalho "Testes com alma" - eMOBILIDADE+

