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Fiat Grande Panda: o regresso do utilitário acessível

17 abril 2026

Passei alguns dias da semana ao volante do novo Fiat Grande Panda. Dias de escola, supermercado, aulas de natação, mochilas espalhadas no banco traseiro e perguntas constantes das duas crianças: “É elétrico mesmo?” e “Podemos ficar com ele?”.

Num mercado onde os citadinos acessíveis parecem estar em vias de extinção, o Grande Panda surge quase como um manifesto. Um automóvel pequeno, descomplicado, disponível com motor a gasolina ou 100% elétrico e, sobretudo, com preços que ainda fazem sentido. A versão a gasolina arranca em torno dos 20 000 euros, enquanto a elétrica começa pouco acima dos 25 000 euros. Valores que devolvem racionalidade a um segmento que precisa urgentemente dela.
Mas será que o estilo retro-futurista é suficiente para o tornar irresistível? A resposta começa no primeiro olhar.

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Nostalgia pixelizada com carácter

O Grande Panda assume sem pudor uma inspiração retro. Há qualquer coisa de gráfico, quase 8-bit, nas óticas quadradas e na linguagem geométrica da carroçaria. O amarelo vibrante da unidade ensaiada ampliava essa personalidade irreverente, e tornava impossível passar despercebido à saída da escola.
Os detalhes contam histórias. As pequenas incisões sobre as cavas das rodas evocam o antigo logótipo da marca. No pilar traseiro, um painel holográfico alterna entre o novo e o antigo emblema consoante o ângulo de visão, um gesto subtil, mas carregado de simbolismo. A palavra “Panda” surge gravada na chapa lateral, quase como assinatura em relevo.
É um pequeno automóvel com presença. E isso, num segmento onde muitos optam pela neutralidade, é uma virtude.

Interior: cor, memória e leveza

Ao abrir a porta, somos imediatamente envolvidos por um interior surpreendentemente alegre e cheio de personalidade. O contorno amarelo do sistema de infotainment evoca a icónica pista oval do histórico complexo industrial de Turim, com um pequeno Panda ilustrado a percorrê-la — detalhe que as crianças descobriram antes de mim, apontando e rindo enquanto exploravam o habitáculo.
Os plásticos são simples, mas a combinação cromática transforma o espaço numa experiência visual envolvente. Tons de azul profundo nas portas e no tablier, contrastes de textura e, nesta versão superior, uma pequena caixa de arrumação em bambu à frente do passageiro conferem leveza e sofisticação discreta ao conjunto. Cada elemento parece pensado para criar harmonia entre funcionalidade e estilo, tornando o habitáculo acolhedor e intuitivo.
O espaço não é apenas visual: a altura generosa e a forma quadrada da carroçaria proporcionam conforto para os ocupantes, incluindo os dois bancos traseiros onde as crianças se sentam com facilidade, e permitem instalar cadeiras de segurança sem constrangimentos. Pequenos detalhes, como suportes para copos e bolsos bem posicionados, revelam atenção ao dia a dia de uma família urbana, transformando o Grande Panda num automóvel pequeno, mas surpreendentemente capaz.

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Surpreendente para o tamanho

Apesar das dimensões compactas, o Grande Panda revela uma habitabilidade convincente. A silhueta quadrada beneficia a altura interior, e mesmo com uma cadeiras de criança instalada atrás, não senti claustrofobia. Há espaço suficiente para um sistema ISOFIX voltado para trás, embora a instalação exija alguma paciência, dado que os pontos de fixação estão algo escondidos.

A bagageira surpreendeu. Conseguimos acomodar mochilas, sacos de compras e ainda os equipamentos desportivos sem compromissos. Para um citadino, cumpre, e mais do que isso, adapta-se.

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Condução: simples, honesta, urbana

Num quotidiano dominado por SUV complexos e digitalizações excessivas, o Grande Panda é quase terapêutico. Botões físicos para a climatização. Chave tradicional que roda na ignição. Comandos diretos para desligar assistentes de velocidade ou manutenção na faixa. Tudo está onde esperamos que esteja.
A versão elétrica anuncia até 320 km de autonomia em ciclo WLTP, mas em utilização realista, percursos urbanos, algum trânsito e ar condicionado ligado, a autonomia rondou os 220 km. Para cidade e periferia é suficiente; para viagens frequentes mais longas, a versão a gasolina continua a ser a opção mais versátil.
Um detalhe inteligente na versão elétrica: o cabo de carregamento AC retrátil escondido atrás de uma pequena tampa frontal. Uma solução elegante e prática, que evita cabos soltos na bagageira. Pena que não esteja disponível na configuração de carregamento AC mais rápida (11 kW), onde o cabo mais espesso obriga a solução tradicional.
Não há condução “one-pedal” na versão elétrica, algo que poderia reforçar o conforto em ambiente urbano. A visibilidade traseira é limitada devido ao óculo estreito, exigindo maior atenção em manobras.

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Teste com alma

O Grande Panda não tenta ser sofisticado. Não procura impressionar com ecrãs gigantes nem com números exuberantes. Procura, isso sim, devolver ao automóvel pequeno aquilo que sempre foi a sua essência: acessibilidade, funcionalidade e personalidade.
Durante esta semana, tornou-se parte da rotina familiar com naturalidade. Fácil de estacionar, económico de utilizar, suficientemente espaçoso para dois filhos e suficientemente distinto para nos arrancar um sorriso.
Num tempo em que os automóveis acessíveis parecem cada vez mais raros, o Fiat Grande Panda surge como um salvador discreto e necessário. Pequeno no tamanho, grande na intenção.

Por Eduardo Carvalho "Testes com alma" - eMOBILIDADE+


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