Mercedes-Benz EQV 300
Silencioso, imponente e confortável, o Mercedes-Benz EQV mostra que a mobilidade elétrica vai além da eficiência, privilegiando espaço, serenidade e qualidade de vida no quotidiano familiar.
Nem sempre é em estrada aberta que se mede um automóvel; por vezes, é na rotina que ele se distingue. O Mercedes-Benz EQV encaixa claramente nesta lógica. Durante o ensaio, que foi efetuado em contexto familiar, sobretudo na presença dos nossos dois filhos, a Francisca, de 9 anos, e o António, de 6, sempre ansiosos por escolher lugares, explorar o espaço e transformar cada deslocação num momento de conforto partilhado.
A experiência positiva não se ficou pelo interior. À porta da escola, o EQV rapidamente chamou a atenção. Num ambiente onde os monovolumes e vans de grande dimensão são presença habitual, o silêncio absoluto com que chegava contrastava com tudo o resto. Os olhares curiosos, as perguntas sobre autonomia e os comentários sobre “não se ouvir nada” tornaram-no num inesperado tema de conversa. Um pequeno sinal, mas revelador, de que a mobilidade elétrica familiar começa a ganhar terreno, não por imposição, mas por desejo.

Um monovolume para o futuro real
O Mercedes-Benz EQV leva a propulsão 100% elétrica ao segmento dos grandes monovolumes, com uma proposta surpreendentemente madura. São até 357 km de autonomia WLTP, zero emissões locais e, talvez mais importante, pouquíssimos compromissos práticos. A integração da bateria não penaliza o espaço, nem a modularidade, nem o conforto.
A qualidade geral posiciona-se vários patamares acima do que seria expectável num modelo com raízes num veículo comercial. Não é um automóvel acessível, e nunca pretendeu ser, mas também não resulta de cedências em conforto, tecnologia ou perceção de valor. Num panorama dominado por superdesportivos elétricos e conceitos futuristas, é precisamente um modelo como o EQV que demonstra onde a transição elétrica realmente importa: no transporte de famílias, crianças e profissionais, todos os dias.
Evolução lógica, sem ruturas
Este modelo é baseado na Classe V, o grande monovolume da Mercedes-Benz derivado da Vito, e surge como a evolução natural após a introdução da eVito. Tal como a sua congénere comercial, faz a transição para a eletrificação total com surpreendentemente poucos sacrifícios. O preço reflete essa tecnologia, posicionando-se acima de uma Classe V equivalente a combustão, mas para famílias com visão progressista ou operadores com elevada quilometragem anual, o racional económico começa claramente a fazer sentido.

Conforto em primeiro plano
O EQV recorre a um motor elétrico de 204 cv de potência máxima (95 cv contínuos), alimentado por uma bateria de iões de lítio montada no piso, numa posição central e rebaixada. Esta solução técnica beneficia diretamente a estabilidade e o comportamento dinâmico.
Estão disponíveis duas versões: EQV 250, com bateria de 60 kWh, e EQV 300, com 90 kWh. A velocidade máxima é limitada a 140 km/h, e o consumo energético situa-se em torno dos 27 kWh/100 km em ciclo WLTP.
Em condução, o EQV aproxima-se muito de uma Classe V convencional, mas melhora-a. A Mercedes-Benz reviu profundamente molas, amortecedores, barras estabilizadoras e pontos de fixação, aproximando a experiência da de um automóvel de passageiros. A suspensão adaptativa Agility Control, de série, ajusta-se ao piso e entrega um conforto de rolamento notável para um veículo destas dimensões. O silêncio da propulsão elétrica reforça uma sensação de serenidade a bordo que rapidamente se torna viciante, sobretudo em ambiente urbano.

Design discreto, qualidade evidente
Visualmente, mantém-se fiel à Classe V, distinguindo-se sobretudo pelo painel frontal preto da gama EQ e pelas jantes específicas de 17 polegadas. A unidade ensaiada conta com sete lugares, distribuídos por três filas, num conjunto equilibrado e bem proporcionado.
O verdadeiro destaque está no interior. O habitáculo revela um cuidado construtivo e uma perceção de qualidade que surpreendem. Os acabamentos em pele Nappa, o desenho sóbrio do painel de instrumentos, com clara inspiração na Classe S, e a modularidade exemplar fazem do EQV um espaço verdadeiramente premium. Os bancos deslizam e removem-se com facilidade, e a abertura independente do vidro traseiro revela-se particularmente prática no quotidiano urbano.
À frente, o ambiente tecnológico é dominado por dois ecrãs de 12,3 polegadas para instrumentação e infoentretenimento, integrados no sistema MBUX.
Tecnologia e mercado
Em muitos mercados europeus, o EQV é comercializado sobretudo na versão EQV 300 Executive Long, com preços a rondar os 100.000 euros, dependendo da configuração e da fiscalidade local. O sistema MBUX inclui funções específicas para veículos elétricos, navegação otimizada para carregamentos e acesso ao serviço Mercedes me Charge, que simplifica o carregamento em redes públicas europeias.
O equipamento de série é extenso e coerente com o posicionamento premium: jantes de 17”, faróis LED Multibeam, assistências avançadas à condução, MBUX com Navegação Plus, portas laterais elétricas, porta traseira Easy-Pack, iluminação ambiente e cabo de carregamento de oito metros.
Custos, autonomia e racionalidade
Com até 357 km de autonomia WLTP, o EQV adapta-se bem ao uso diário. Numa wallbox doméstica de 11 kW, o carregamento completo demora cerca de 10 horas. Em corrente contínua, com potências até 110 kW, é possível recuperar de 10 a 80% da bateria em aproximadamente 45 minutos.
A gestão ativa de autonomia e o modo E+ ajudam a otimizar consumos e a reduzir a ansiedade de carregamento. Para quem percorre muitos quilómetros por ano, sobretudo em contexto urbano ou profissional, o racional económico começa a ser claro. Os valores residuais deverão manter-se sólidos, já que o EQV inaugura, na prática, um novo segmento: o dos monovolumes elétricos de grande dimensão.

O futuro também leva crianças
Poucos teriam antecipado que um dos modelos elétricos mais relevantes da Mercedes-Benz surgisse sob a forma de um grande monovolume. Mas o EQV é exatamente isso: um produto bem pensado, tecnicamente sólido e alinhado com o futuro real da mobilidade.
E, pelo menos à porta da escola dos nossos filhos, ficou evidente que esse futuro elétrico pode ser familiar, espaçoso, silencioso, e surpreendentemente desejável.
por Eduardo Carvalho "Testes com alma" - EMOBILIDADE+


