
O transporte rodoviário europeu entrou em 2026 num ponto de viragem, marcado por tensão, custos crescentes e um equilíbrio cada vez mais frágil entre a oferta e a procura. De acordo com o relatório mais recente da IRU, elaborado em parceria com a Upply e a Transport Intelligence, no primeiro trimestre do ano verificou-se uma divergência clara entre os mercados contratual e à vista, o que indica que o setor está a reagir de forma desigual à pressão inflacionista.
As tarifas contratuais aumentaram para 140,1 pontos de índice, o que reflete um aumento de 3,2 pontos em relação ao trimestre anterior e de 8,9 pontos em termos homólogos. Em contraste, o mercado à vista recuou ligeiramente para 132,3 pontos, o que corresponde a uma descida de 2,8 pontos em cadeia e de 2,0 pontos em relação ao período homólogo. Esta diferença, que vai para além da estatística, reflete duas velocidades distintas dentro do mesmo sistema logístico europeu.
Mercado com procura fraca e custos elevados
No início de 2026, observou-se um comportamento típico de pós-pico sazonal no segmento dos mercados de curto prazo, com menor procura e consumidores ainda cautelosos face ao contexto económico. No entanto, esta realidade está a ser rapidamente ultrapassada por uma variável dominante: o custo do combustível.
De facto, o preço médio do gasóleo na União Europeia aumentou significativamente, tendo disparado de 1,56 €/litro no final de 2025 para 1,96 €/litro no final do primeiro trimestre de 2026, o que corresponde a um aumento de 26%. Este movimento foi impulsionado pela escalada do Brent para além dos 100 dólares por barril, na sequência do encerramento do Estreito de Ormuz, num contexto de tensão geopolítica no Médio Oriente.
França e Alemanha lideraram as subidas, com aumentos de 27% e 35%, respetivamente, pressionando ainda mais uma estrutura de custos já fragilizada.
Indústria em expansão, mas com sinais de fragilidade
Apesar do atual ambiente de pressão energética, o setor industrial europeu mostrou sinais de recuperação. O PMI da indústria transformadora da zona euro subiu para 51,6 em março, o valor mais elevado desde junho de 2022, o que indica uma expansão moderada, produção nos níveis mais elevados dos últimos sete meses e estabilização das novas encomendas.
No entanto, os indicadores estruturais do setor dos transportes revelam fragilidades persistentes: as matrículas de novos camiões caíram 6% em 2025, segundo a ACEA, e cerca de 12,1% dos postos de motorista permaneciam por preencher na União Europeia, de acordo com dados preliminares da IRU.
A estes fatores soma-se o aumento das portagens, com a Polónia a registar a maior subida na UE no trimestre (+33%), e uma perspetiva de pressão moderada sobre as tarifas ao longo de 2026.
Um setor entre volatilidade e adaptação
Segundo Michael Clover, da Transport Intelligence, a dinâmica atual confirma padrões históricos no mercado à vista, mas com um agravante decisivo: o impacto dos custos energéticos. "A subida do gasóleo deverá acelerar a recuperação das tarifas, mas a grande incógnita continua a ser o efeito prolongado da instabilidade geopolítica sobre os volumes e as cadeias de abastecimento", sublinha.
O mercado dos insumos críticos também começa a ser afetado. O abastecimento de AdBlue, um aditivo essencial para os veículos a gasóleo, poderá estar em risco se o conflito no Médio Oriente se prolongar, aumentando a incerteza operacional no transporte de mercadorias.
Vincent Erard, da IRU, alerta para um cenário estruturalmente frágil: "A volatilidade dos combustíveis expõe a fragilidade do setor. São necessárias respostas coordenadas para garantir a estabilidade e a resiliência das cadeias logísticas europeias".
Um novo ciclo para o transporte rodoviário europeu
As perspetivas para o segundo trimestre apontam para a continuidade da pressão em alta, com o combustível a afirmar-se como o principal motor de evolução das tarifas. Apenas no mês de março, os preços do gasóleo aumentaram 31%, evidenciando a incapacidade dos operadores em absorver custos sem os refletir diretamente nos preços.
O índice de sentimento do transporte rodoviário europeu subiu para 16,9 pontos no primeiro trimestre, o que indica uma expectativa crescente de aumento das tarifas nos próximos meses.
Segundo Thomas Larrieu, CEO da Upply, o setor entrou numa nova fase: "Os custos passaram a ser o principal motor das tarifas, ultrapassando a procura. O desafio agora é perceber a velocidade e a forma como esta pressão será transmitida ao longo das cadeias logísticas europeias”.
Num cenário em que a energia, a geopolítica e a logística se cruzam com uma intensidade rara, o transporte rodoviário europeu enfrenta um dos seus períodos mais sensíveis da última década, e simultaneamente, um dos mais determinantes para o seu futuro. (Fonte IRU)