
O velho ditado dizia que um veículo novo perdia 10% do seu valor assim que saía do stand - e cerca de 40% um ano depois. É uma afirmação de longa data cujo significado é muito claro, pois diz tudo sobre o que costumava acontecer na transação entre o condutor e o fabricante de automóveis. Para além das garantias e dos acordos de assistência, as responsabilidades do fabricante terminavam assim que o proprietário do novo automóvel se sentava ao volante e rodava a chave. O proprietário tomava posse de um bem em processo de depreciação, e assumia todas as responsabilidades inerentes, incluindo o que fazer com o seu veículo quando terminasse de o utilizar.
Não é necessário olhar para muito longe para ver que as experiências futuras de possuir e conduzir um veículo vão ser muito diferentes. O valor de um veículo novo residia outrora em fatores intangíveis como o prestígio e o estatuto, razão pela qual era tão fácil que grande parte desse valor desaparecesse. Atualmente, os fabricantes têm uma ideia muito mais clara e tangível de onde reside esse valor: nos materiais e componentes que mais tarde poderão ser recuperados e reciclados.
Será do interesse financeiro de um fabricante de automóveis continuar a monitorizar o desempenho destes elementos e atualizá-los quando necessário. Efetivamente, será da responsabilidade desse fabricante saber exatamente o que acontece a um veículo e qual o destino dos seus componentes mais valiosos. Ao assumir essa responsabilidade, as marcas de automóveis poderão construir relações mais próximas e mais valiosas com os seus clientes. Poderão também, proporcionar uma sensação de prestígio mais tangível que advém da condução de um veículo comprovadamente sustentável.
O ecossistema que as marcas do setor automóvel constroem em torno dos seus veículos não será apenas mais reativo. Não será apenas mais sustentável. Será um exemplo inovador, e em escala, de uma economia circular em ação, que otimiza a eficiência de custos ao mesmo tempo que minimiza o impacto ambiental – algo que será possível graças à tecnologia da cloud.
O desafio da regulamentação e de recursos está a modificar os modelos de negócio do mundo automóvel. O principal motor desta mudança é a aceleração da eletrificação da condução, que exigirá 4000 gigawatts-hora de capacidade de baterias de iões de lítio até 2030, o suficiente para alimentar cerca de 100 milhões de veículos elétricos (VE) e que representa 10 vezes a capacidade fabricada em 2021. Isto representa um desafio regulamentar e de recursos para as marcas de automóveis. Por um lado, a futura legislação da UE atribui a responsabilidade da eliminação das baterias ao produtor das mesmas, proíbe que as baterias sejam enviadas para aterros e impõe um nível mínimo de conteúdo reciclado para todas as baterias utilizadas nos veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a escassez mundial de matérias-primas cruciais, como o lítio, o cobalto, o níquel e o manganês, torna imperativo para os fabricantes recuperar e reutilizar o maior número possível de elementos de uma bateria de um veículo elétrico. Ao fazê-lo, podem gerir os custos de fabrico das baterias e atenuar os riscos financeiros decorrentes da incerteza dos preços dos produtos de base.
Ambos os desafios apontam para a mesma solução: os fabricantes de automóveis precisam acompanhar o que acontece aos veículos que produziram e às respetivas baterias, de forma a recuperar as mesmas no momento certo e manter os seus componentes em utilização durante o máximo tempo possível. Os mecanismos para o fazer já existem, graças a um mercado de veículos elétricos que está a ser concebido, desde o início, de acordo com os princípios da economia circular. O modelo de negócio dos veículos elétricos tem todo o interesse em saber o que acontece a um automóvel, não só quando este sai da sala de exposições com um novo proprietário, mas também no futuro.
Se os fabricantes de automóveis conseguirem antecipar quando é que o desempenho de uma bateria começa a diminuir e qual o momento ideal para a recolher, poderão facilitar o processo de recuperação da mesma, pois basta-lhes solicitar aos proprietários para trazerem o veículo para uma atualização, em vez de terem de os localizar. Caso consigam identificar a célula específica da bateria que está a falhar, melhor ainda, porque assim será possível recuperar as baterias quando a maioria dos elementos ainda funciona, e reduzir o volume de trabalhos de reciclagem, controlar custos e ficar com mais valor.
A infraestrutura para este tipo de modelo de reciclagem, liderada pelo fabricante, já está em vigor. Funciona com base na capacidade de rastreio das plataformas ligadas à cloud, transformando o hardware em ativos digitais que podem ser monitorizados e analisados a um nível granular.
Nasce, então, um novo tipo de relação entre os condutores e as marcas de automóveis. O percurso circular de uma bateria de VE ligada à cloud começa na gigafábrica onde é produzida pela primeira vez (as gigafábricas devem o seu nome aos gigawatts de capacidade de bateria que fornecem). Quando as baterias saem de uma gigafábrica com ligação à cloud, fazem-no com um documento de monitorização que acompanha as condições e as matérias-primas utilizadas no seu fabrico – um tipo de passaporte digital que pode ficar associado à bateria, que recolhe mais informações sobre a forma como é carregada e descarregada através da tecnologia incorporada nos veículos com ligação à cloud. Soluções como o AWS IoT TwinMaker conseguem utilizar estes dados em tempo real para criar gémeos digitais de cada bateria, representações virtuais que mostram o estado da bateria e dos seus componentes, preveem quando começará a falhar e determinam quais as células responsáveis pela falha. Estes gémeos digitais mostram os materiais dentro da bateria e o estado das restantes células, orientando o processo de recuperação e reciclagem.
É aqui que as exigências dos novos modelos de negócio automóvel começam a criar valor para os próprios compradores dos automóveis. Em vez de se sentirem frustrados com a deterioração do desempenho de um veículo e com o aumento dos custos de manutenção, estes obtêm uma abordagem proativa por parte do fabricante do automóvel, concebida para manter o veículo em funcionamento. O comprador obtém uma relação contínua e uma experiência de apoio ao cliente mais agradável. Para as marcas de automóveis, trata-se de uma oportunidade de acrescentar novas formas de serviço e de se diferenciarem da concorrência. Para um setor que tradicionalmente depende dos concessionários em regime de franquia para cumprir as promessas da sua marca, isto representa um novo tipo de caminho a percorrer.