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Biocombustíveis avançados pedem espaço na transição

07 setembro 2026

A Associação de Bioenergia Avançada defende metas mais ambiciosas e estabilidade política para acelerar a utilização de combustíveis renováveis produzidos a partir de resíduos.

A eletrificação tem um papel central na descarbonização dos transportes, mas não resolve sozinha todos os segmentos nem todas as operações. Foi esta uma das ideias centrais deixadas por Ana Calhôa, secretária-geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), durante o B+ Summit Portugal 2026, realizado a 30 de junho.

Para a associação, os biocombustíveis avançados e o biometano podem reduzir emissões já, tirando partido de frotas e infraestruturas existentes. A questão, defende, está menos na disponibilidade tecnológica do que na previsibilidade necessária para investir, produzir e incorporar estas soluções em maior escala.

O valor dos resíduos

Criada em 2019, a ABA reúne cerca de 25 associados de toda a cadeia de valor da bioenergia: operadores de gestão de resíduos, empresas de transformação, produtores de biodiesel e biometano e entidades ligadas à economia circular. A associação trabalha igualmente com organizações europeias como a European Biogas Association e a European Waste-based & Advanced Biodiesel Association.

O seu campo de atuação parte de uma ideia concreta: valorizar matérias-primas residuais, entre as quais óleos alimentares usados e gorduras animais, e transformá-las em energia para a mobilidade e para a indústria.

Ana Calhôa considera que a transposição da diretiva europeia RED III será decisiva para o rumo do setor na próxima década. “Temos uma oportunidade única para criar as condições necessárias para acelerar esta transição”, afirma.

A responsável defende metas mais ambiciosas, mas sobretudo uma visão que não coloque todas as expectativas numa única tecnologia. “A eletrificação terá naturalmente um papel fundamental, mas não conseguirá fazê-lo sozinha. Tem de ser complementada por outras soluções, como o biometano e os biocombustíveis líquidos.

Para os transportes pesados, marítimos e aéreos, onde a eletrificação continua a enfrentar limitações de autonomia, carga, operação ou infraestrutura, esta complementaridade ganha particular relevância. Quanto maior for a incorporação de combustíveis renováveis, menor será a dependência dos combustíveis fósseis e do petróleo importado.

A urgência de regras estáveis

O potencial industrial não chega, porém, para garantir investimento. A ABA aponta a falta de previsibilidade e de estabilidade como um dos principais entraves à consolidação do setor em Portugal.

A discussão em torno do limite de 1,7% aplicável a determinados biocombustíveis avançados produzidos a partir de matérias-primas residuais é, para a associação, um exemplo dessa preocupação. Ana Calhôa alerta que a aplicação desse teto poderá comprometer a competitividade da indústria nacional e limitar a valorização de resíduos disponíveis no país.

A associação sustenta que Portugal tem condições específicas que justificam uma abordagem distinta. O país não dispõe das mesmas condições agrícolas para produzir culturas como colza ou soja, mas tem capacidade instalada, tecnologia e disponibilidade de resíduos que podem ser transformados em combustíveis renováveis.

A ambição passa por evitar que a legislação crie um bloqueio onde existe, precisamente, uma oportunidade de economia circular. “Precisamos de previsibilidade e estabilidade regulamentar, duas condições que, infelizmente, continuam a faltar em Portugal”, resume a secretária-geral da ABA.

Circularidade em circulação

A aplicação prática desta lógica já pode ser observada em alguns projetos. Em Cascais, a Carris utiliza B100, um combustível composto integralmente por biodiesel, sem incorporação de combustível fóssil.

Outro exemplo referido por Ana Calhôa envolve um camião de recolha de resíduos abastecido com biocombustível produzido a partir dos próprios materiais que recolhe. A imagem resume uma cadeia que se pretende fechar: o resíduo é recolhido, valorizado, transformado em energia e devolvido à operação que o transporta.

Quando juntamos entidades públicas, empresas e uma visão integrada da economia circular, conseguimos implementar soluções concretas, eficientes e com impacto imediato”, sublinha.

É neste ponto que as parcerias entre entidades públicas e privadas podem assumir um papel decisivo. A infraestrutura já existe, os veículos já circulam e os combustíveis podem ser utilizados sem uma substituição imediata do parque automóvel. Para a ABA, esta é uma vantagem particularmente importante num setor que precisa de reduzir emissões sem interromper a atividade.

A colaboração com empresas como a PRIO é apontada como exemplo dessa capacidade de transformar resíduos em combustíveis utilizáveis no presente. A associação rejeita, por isso, a ideia de competição entre soluções. “A eletrificação e os biocombustíveis não competem entre si. São soluções complementares e ambas serão indispensáveis para cumprir as metas climáticas.”

Competitividade e soberania

A discussão ultrapassa a redução de emissões. No B+ Summit Portugal 2026, Gabrielle Gauthey, secretária-geral da GD4S - Gas Distributors for Sustainability, recordou que a Europa está a discutir simultaneamente energia, indústria e autonomia estratégica.

A Europa não está apenas a redefinir o seu sistema energético, mas também os termos da sua competitividade, da sua soberania e das suas escolhas industriais”, afirmou.

É uma leitura que encontra eco na posição da ABA. Produzir combustíveis renováveis a partir de resíduos disponíveis no território significa reduzir importações, criar valor industrial e dar um destino útil a matérias que, de outro modo, permaneceriam subaproveitadas.

Nos próximos anos, a associação pretende acompanhar a incorporação de biocombustíveis avançados, a redução da dependência de combustíveis fósseis e a diminuição das emissões de gases com efeito de estufa no setor dos transportes.

A meta é simples de enunciar, mas exige decisões claras: aproveitar soluções que já existem, criar condições estáveis para investir e reconhecer que a transição energética será feita por várias vias. Nos transportes, o tempo da solução única já passou.

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