Logística de frio em debate no 4.º seminário da APLOG
Evento decorre a 17 de março, no Museu do Oriente, e deverá reunir cerca de 150 profissionais da cadeia de frio. O presidente da APLOG, Afonso Almeida, antecipa à Eurotransporte os principais temas em debate.
A cadeia de frio volta a estar no centro do debate logístico nacional com a realização do 4.º Seminário de Logística de Frio, promovido pela APLOG – Associação Portuguesa de Logística, no próximo dia 17 de março, em Lisboa. O encontro reunirá especialistas, produtores, retalhistas e operadores logísticos para analisar os desafios que marcam o setor — desde os custos energéticos à inovação tecnológica.
Em entrevista à EUROTRANSPORTE, Afonso Almeida, presidente da APLOG, antecipa os principais temas do evento e traça um retrato da evolução da logística de frio em Portugal.
EUROTRANSPORTE: O 4.º Seminário de Logística de Frio consolida-se como uma referência no setor. Como avalia esta edição e que expectativas tem para o debate do dia 17 de março?
AFONSO ALMEIDA: As expectativas são muito positivas. Esperamos reunir cerca de 150 participantes, provenientes de diferentes áreas da cadeia de frio — produtores, retalhistas, operadores logísticos e especialistas em tecnologia. O seminário vai começar com uma visão europeia sobre o futuro da logística de frio, apresentada por uma representante da associação europeia do setor. Ao longo do dia teremos vários painéis que irão abordar temas como o papel estratégico da cadeia de frio para produtores e retalhistas, a inovação tecnológica, a sustentabilidade e a evolução das infraestruturas.
Vamos também discutir a inteligência artificial aplicada à logística, a descarbonização do setor, as inovações no transporte de contentores refrigerados e ainda um tema muito importante: a gestão de pessoas em ambientes de trabalho refrigerados e congelados. Estamos convencidos de que será uma edição muito rica em conteúdos e debate.
Como caracteriza o momento atual da logística de frio em Portugal?
A logística de frio em Portugal está numa fase de crescimento e consolidação. Basta olhar para a evolução do retalho alimentar: hoje encontramos uma oferta muito mais ampla de produtos refrigerados e congelados do que existia há dez ou quinze anos. Este crescimento tem impacto direto na logística. Atualmente estima-se que a capacidade instalada de armazenagem frigorífica em Portugal ultrapasse as 500 mil posições de palete, distribuídas entre produtores, retalhistas e operadores logísticos.
Também temos assistido à construção de novas infraestruturas industriais e logísticas, associadas ao crescimento da indústria alimentar. Ao mesmo tempo, o aumento do turismo e as mudanças nos hábitos de consumo têm contribuído para uma procura cada vez maior por este tipo de produtos.
O atual contexto geopolítico e a instabilidade nas rotas internacionais podem ter impacto no setor?
Sim, sobretudo através do impacto nos custos energéticos e nos transportes. No transporte rodoviário, por exemplo, o combustível pode representar entre 35% e 40% do custo total da operação, pelo que qualquer subida significativa tem impacto imediato em toda a cadeia. Esses custos acabam por ser repercutidos ao longo da cadeia logística — desde os operadores até aos produtores e ao retalho — e inevitavelmente chegam ao consumidor. No caso da logística de frio existe ainda o peso do consumo energético das infraestruturas, particularmente nos armazéns de congelados, que exigem níveis elevados de energia para manter as temperaturas adequadas.
Para além do contexto geopolítico, quais são hoje os principais desafios do setor?
Um dos principais desafios continua a ser o custo da energia, que tem um peso muito significativo na operação das empresas.
Outro fator importante é o elevado investimento necessário nas infraestruturas de frio. Estes armazéns são tecnicamente mais exigentes e mais caros do que as instalações logísticas convencionais, tanto em termos de construção como de operação.
Apesar disso, muitas empresas têm vindo a investir em eficiência energética e sustentabilidade, instalando painéis solares ou adotando sistemas de refrigeração mais eficientes. No entanto, esses investimentos são frequentemente feitos sem apoios significativos do Estado, sendo suportados sobretudo pelas próprias empresas.
Como está o setor a responder ao desafio da descarbonização?
A transição energética já está em curso. Muitas empresas estão a apostar em novas tecnologias de refrigeração e em soluções energeticamente mais eficientes, incluindo sistemas baseados em CO₂ ou outros fluidos frigoríficos com menor impacto ambiental.
É provável que na próxima década assistamos a mudanças tecnológicas relevantes na área da refrigeração, resultado da investigação e da inovação que está a acontecer no setor.
Que tecnologias emergentes considera mais disruptivas para a cadeia de frio?
A inteligência artificial será certamente uma das tecnologias mais transformadoras.
Já hoje vemos aplicações concretas na gestão de inventários, preparação de encomendas, previsão da procura e otimização de rotas de transporte. Ao mesmo tempo, os sistemas de sensores e monitorização permitem acompanhar em tempo real a temperatura e a localização da carga.
Outra tendência importante é a automação dos armazéns, com sistemas robotizados e soluções autónomas que permitem aumentar a eficiência operacional, sobretudo nas operações de maior escala.
Onde gostaria de ver a logística de frio portuguesa daqui a cinco anos?
Acredito que o setor continuará a crescer de forma sustentada, acompanhando a evolução do consumo e das cadeias alimentares.
Portugal já reforçou significativamente a sua capacidade de armazenagem frigorífica nos últimos anos, pelo que a evolução futura deverá passar sobretudo pela digitalização, automação e eficiência energética das operações.
Quanto à possibilidade de Portugal se afirmar como um hub ibérico da cadeia de frio, trata-se de um cenário mais complexo. Neste setor é muito comum que cada país mantenha os seus próprios stocks, sobretudo por razões de proximidade ao consumo e de segurança alimentar.
Ainda assim, melhorias nas infraestruturas portuárias, ferroviárias e nos processos logísticos poderão reforçar a competitividade do país e aumentar a sua relevância nas cadeias internacionais de abastecimento.
A Eurotransporte, enquanto parceira oficial da APLOG, irá editar na Edição n.º 151, a reportagem do 4.º Seminário de Logística de Frio (17 de março de 2026, Museu do Oriente), reunindo os principais decisores da cadeia de frio em Portuga com a Análise às tendências estratégicas: sustentabilidade, digitalização e resiliência da cadeia de abastecimento.

